A subestimação do Sporting
Uns acham ser sorte, outros que é a melhor equipa a praticar futebol em Portugal. Eu, acho que pode e deve ter um pouco dos dois. Haverá espaço para acreditar no tricampeonato do Sporting?
Aos olhos de quem não quer ver um novo Sporting nascer, ainda vivemos entre 2002 e 2020. Ainda estamos no espaço temporal de 18 anos em que os leões não conseguiram conquistar o campeonato nacional e mostravam ser o mais pequeno dos 3 grandes.
Uma Taça de Portugal ali, uma Taça da Liga ou uma Supertaça acolá, mas pouco mais do que isso. Conquistou 9 títulos nacionais em 63 possíveis. Demasiado pouco para quem se senta à mesa dos maiores. Na Europa, somou noites duras como o célebre 12-1 frente ao Bayern, as derrotas com Videoton, Skenderbeu, LASK Linz ou Viktoria Plzen que alimentaram uma narrativa externa e interna de fragilidade competitiva.
Criou-se uma cultura. A cultura de que o Sporting vai acabar por falhar. De que “não tem estofo”. De que, quando a pressão aperta, treme. E as narrativas, quando repetidas durante quase duas décadas, transformam-se em identidade. Mesmo quando a realidade muda.
Entre 2020/21 e 2025/26, o Sporting CP conquistou três Campeonatos Nacionais, duas Taças da Liga, uma Supertaça e uma Taça de Portugal. Sete títulos nacionais em seis épocas. Está, nesta temporada, ainda na corrida para um possível tricampeonato, apesar da distância pontual para o FC Porto e na luta por um lugar no Jamor, que discute a partir de amanhã também com os dragões.
No entanto, a dúvida persiste.
Há quem diga que é sorte.
Há quem diga que é circunstancial.
Há quem diga que o ciclo vai terminar “porque o Sporting é o Sporting”.
Talvez o mais curioso seja que quando o Benfica ou FC Porto vencem de forma consistente, fala-se de hegemonia. Quando o Sporting o faz, fala-se de exceção.
Mas o que está a acontecer não é excecional. É estrutural.
A entrada de Frederico Varandas marcou o início de uma reconstrução silenciosa. Financeira primeiro. Institucional depois. E desportiva por consequência. Num clube que vinha de anos de instabilidade, com múltiplos presidentes, dois ou três treinadores por época, decisões erráticas no mercado, ausência de rumo, gestão danosa, a prioridade passou a ser uma: estabilidade!
A Estabilidade que não dá manchetes, que não se vê na ordem do dia, mas que ganha campeonatos.
O projeto iniciado com Ruben Amorim foi mais do que uma aposta num treinador jovem. Foi uma redefinição cultural. Amorim não revolucionou apenas o modelo tático, que trouxe riqueza e variabilidade à equipa do ponto de vista estratégico. Revolucionou a mentalidade. Reintroduziu exigência, disciplina competitiva e uma ideia clara de que o Sporting não entra em campo para sobreviver à pressão. Entra para a impor.
A aposta na formação deixou de ser discurso e voltou a ser prática. Vários jogadores cresceram dentro do projeto. À cabeça, Gonçalo Inácio, Nuno Mendes, Matheus Nunes, Daniel Bragança, Quenda, Eduardo Quaresma, João Simões. Dário Essugo, Tiago Tomás e tantos outros. Valorizou-se a escola Sporting e com eles se conquistaram títulos, provando que não há talento maior do que aqueles que unem a qualidade ao amor muito próprio pelo clube que lhes abriu portas para o mundo.
Trincão, Pedro Gonçalves, Paulinho, Nuno Santos, João Palhinha, Gyokeres, o próprio Coates. Outros tantos que foram valorizados. Muitos foram vendidos no momento certo, mas não todos. E aqui está uma das diferenças fundamentais. O Sporting foi, nos últimos anos, o grande que mais conseguiu manter a sua base.
Num futebol português marcado por saídas anuais e reconstruções constantes, a continuidade tornou-se uma estratégia a aplicar. Rotinas mantidas. Lideranças consolidadas. Grupo estável dentro e fora do campo. O Sporting conseguiu tudo isso porque a hegemonia era uma realidade e o projeto começou a convencer quem ficava a não sair cedo demais.
Com a saída de Amorim, o projeto tremeu, sim. Mas não colapsou. Seguiu. Com João Pereira parecia que o fim estava anunciado, mas até nisso Frederico Varandas soube assumir as despesas do seu erro e contratar posteriormente Rui Borges, que manteve a identidade competitiva e também ele soube assumir que alterar a meio da época uma rotina tão bem trabalhada com o anterior treinador, era afundar o barco. No fundo, uma boa dose de humildade que nunca é demais ter num candidato ao título.
Lutou contra todas as dúvidas, minhas inclusive depois de uma série de alguns maus resultados que ele melhor do que ninguém soube aguentar e reverter. Manteve a riqueza tática da equipa e sem retirar esses automatismos, criou outros, formando um monstro difícil de parar. Organização e processos claros, humildade no discurso, ambição em campo (algo que ainda assim pode melhorar sobretudo nos grandes jogos, ter menos receio e mais superioridade). Não houve ruptura. Houve uma transição muito bem feita e os resultados estão à vista.
Criou-se algo que é notável. O Sporting hoje se perde um título, existe uma revolta coletiva dos seus associados. Não uma cultura de irrelevância ou naturalidade como em tempos existia. O Sporting caiu na Supertaça e na Taça da Liga, mas não deixou que isso afetasse o resto. Escorregou frente a FC Porto, Benfica, Braga e Gil Vicente no campeonato, mas é a melhor equipa a superiorizar-se frente aos restantes adversários, contra quem só ganhou e criou essa consistência tão necessária na luta pelo título. Está nas meias finais da Taça de Portugal e, de forma categórica, nos oitavos da Champions, onde pode sonhar com uma presença inédita nos quartos de final da prova, porque ainda que o Bodo/Glimt esteja a ser a grande sensação na Europa, o Sporting já provou ser capaz de superar qualquer adversário, e o top 8 na Liga dos Campeões mostra precisamente isso.
Isso não acontece por acaso. Acontece quando há estrutura.
E talvez seja precisamente isso que incomoda.
Durante anos, o Sporting foi o exemplo do que não fazer. Instabilidade diretiva, mercado impulsivo, falta de rumo técnico. Hoje é o contrário. É o clube que melhor equilibra vendas e retenções. O que mais protege o balneário. O que menos treme a cada desaire.
A subestimação tornou-se reflexo condicionado. Mesmo a quatro pontos da liderança, fala-se mais da improbabilidade do tricampeonato do que da possibilidade real de o conquistar. Como se sonhar fosse um excesso de confiança. Como se acreditar fosse ingenuidade.
Mas há algo que mudou profundamente na cultura sportinguista. O Sporting já não vive da esperança. Vive de consistência, de trabalho, de grandeza.
Pode não conquistar o tricampeonato, porque o futebol não se escreve com certezas. Mas reduzi-lo à narrativa de que “acabará por falhar” é ignorar seis anos de construção sólida.
Entre 2002 e 2020, o Sporting foi o mais pequeno dos três grandes.
Entre 2020 e 2026, deixou de o ser.
Talvez o maior feito recente não esteja apenas nos títulos. Está na mudança de mentalidade que contribuiu para esta estabilidade. E essa, ao contrário das secas, não depende do calendário. Depende da estrutura.
Se é a melhor equipa em Portugal? Talvez.
Se houve momentos de sorte? Como todos os campeões.
Mas a cultura de exigência que entretanto se criou em torno dos seus adeptos, é algo que se conquista e cria uma identidade difícil de se romper com o tempo.
O Sporting já não é o clube que “quase consegue”. É o clube que compete até ao fim.
E talvez esteja na altura de o futebol português começar a olhar para isso sem os óculos de outros tempos.



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